Resenha: A História de Nós Dois, Dani Atkins

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Um livro sem frases de efeito, citações piegas ou diálogos previsíveis, focado na história que está sendo contada. A História de Nós Dois prioriza a narrativa e, definitivamente, a construção do enredo da “ciranda” amorosa contada pela escritora Dani Atkins.

A autora inicia o livro fazendo uso de uma estratégia bastante curiosa: o primeiro capítulo é na verdade parte do desfecho do enredo, contado em pequenos trechos ao longo de toda a história (para os leitores ansiosos que, como eu, sempre olham a última página de uma obra antes de iniciá-la, não será necessário!). Tal artifício induz o leitor a achar que irá encontrar um final extremamente previsível, fazendo o mesmo ter um choque daqueles ao ler o capítulo final. Confesso que ao terminar a leitura, precisei retornar e reler os trechos de forma contínua, para entender e absorver o que havia acabado de ler, deixando a história ainda mais emocionante.

A partir daí, a história começa a ser contada do ponto da vista da protagonista, a inglesa Emma, que com 27 anos está na noite de sua despedida de solteira. É nesta mesma noite que ocorre o acidente de carro citado na sinopse, acontecimento chave para que a vida dos personagens – Emma, suas melhores amigas Amy e Caroline, seu noivo Richard e o misterioso americano Jack – se cruze e seja modificada de maneira trágica.

Diferente do que habitualmente acontece em enredos com acontecimentos trágicos, os momentos que envolvem o acidente são descritos minuciosamente: antes, durante e depois do ocorrido. E tendo este contexto como base, as personagens principais vão sendo construídas e apresentadas ao leitor, sempre através da ótica da protagonista, que comanda a narrativa.

A família de Emma é introduzida na história aos poucos, porém possui um papel crucial para entendermos os questionamentos, escolhas, medos e incertezas da personagem. E não se demora muito a perceber como o aparentemente consolidado relacionamento amoroso de Emma e Richard foi construído e influenciado por sua família e pelos acontecimentos inerentes a ela.

Podemos dizer que o contrário ocorre na construção de seu vínculo com Jack, algo que começa no momento em que ele salva sua vida. A relação de ambos começa de forma isolada, onde há troca apenas entre os dois personagens, uma conexão é estabelecida e então, ao longo da história, os acontecimentos e opiniões externas aos dois interferirem na relação.

Sendo Emma a narradora da história, os personagens são caracterizados de acordo com as suas impressões, muitas vezes através de uma ótica extremamente inocente. Mesmo com todos os fatos que se apresentam ao longo do livro, é difícil não se “contaminar” pela perspectiva da protagonista, e apesar de todos os pontos positivos de Richard, citados por Emma, o envolvimento do leitor com o sedutor personagem de Jack é imediato – resultado do efeito que o mesmo tem sobre a protagonista. É perceptível que Jack aparentemente tem como qualidades todas as características que o imaturo Richard deixa a desejar.

O relacionamento entre as três amigas é um dos pontos chave e “costura” a história. Mesmo com temperamentos extremamente diferentes, o vínculo formado desde a infância se mantém ao longo da vida adulta, e é retomado após o retorno de Emma à sua cidade natal. Neste momento, podemos observar novamente a inocência da personagem principal, que ignora os acontecimentos do tempo em que esteve fora e as transformações sofridas por seus amigos. Mas é importante destacar que a dinâmica entre Emma, Amy e Caroline funciona, ficando explícito o sentimento e aprendizado ali existentes e também como as personalidades – tão diferentes – se complementam.

Tendo a confiança como tema principal, seja ela em nossos amigos, amantes ou em nós mesmos, A História de Nós Dois é daqueles livros viciantes, de leitura fácil e que trata de situações difíceis, trazendo grandes reflexões com alguns toques de humor (que em sua grande maioria ficam a cargo da chefe francesa de Emma). Atkins acertou no tom leve utilizado para contar uma história triste, trágica, de emoções conturbadas e com um desfecho – sem dúvidas – inesperado e comovente.

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