Livro X Filme: O Maravilhoso Agora

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Quando escolhi o livro para fazer a resenha, confesso que primeiramente fui atraída pelo filme, pois sou fã do ator Milles Teller. Porém, segui a indicação de vários leitores de que deveria primeiro ler o livro e depois ver o filme; e realmente concordo que seja o melhor caminho.

Minha impressão como espectadora é que o diretor, James Ponsoldt, e os roteiristas Michael H. Weber e Scott Neustadter, optaram por fazer um filme mais leve, juvenil e focado no romance dos atores principais, do que em contar a história do livro em sua essência. Boa parte da carga densa da história foi retirada: estupro, drogas, vandalismo, agressões… E diversas modificações me incomodaram: a exclusão de personagens (os padrastos sumiram!), a troca do nome de alguns personagens, características físicas tão citadas no livro não foram levadas em conta (Cassidy não era “maravilhosamente gorda”?) e a forma superficial como trataram a questão do alcoolismo que é um ponto chave do relacionamento entre Aimme e Sutter. Mas o que me deixou realmente muito insatisfeita foi a modificação feita na história e essência dos personagens principais.

Começando por Aimee, vivida pela talentosa Shailene Woodley (atriz principal da série Divergente e de A Culpa é das Estrelas), e que foi a adaptação que mais me chateou. Enquanto no livro a personagem é solitária e carente, ao mesmo tempo demonstra resiliência pois, aceita suas dificuldades e segue em frente mesmo com os traumas que sofreu – o estupro, o abuso da mãe e do padrasto e a morte do pai – no filme ela é reduzida a uma menina pobre, inteligente e de pouca interação social. O tema estupro não é abordado no filme, o contexto da morte do pai alterado e a presença do impertinente padrasto, excluída. Aimme passou de uma personagem intrigante (na resenha do livro chego a levantar a questão de como teria sido enriquecedor para o livro se em algum momento tivéssemos a narrativa dela) a uma menininha boba e apaixonada, daquelas de dar tédio, mas sem a devoção e o apego psicológico que tem por Sutter no livro, ficando muito superficial.

Com relação à Sutter, entendo que deixá-lo menos egoísta e detestável dando a ele traços de humanidade era necessário – considerando também que o talento e carisma de Milles Teller (ator também da série Divergente e do premiado Whiplash) ajudam a criar empatia com o telespectador. Porém, com acontecimentos importantes sendo alterados (o jantar na casa da irmã, por exemplo), e relacionamentos não destacados no livro explorados – a relação amistosa entre ele e o professor e, principalmente, entre ele e a mãe – algumas horas parecia que eu estava assistindo a outro enredo com outro personagem completamente diferente. Anularam a essência do personagem que tanto me desagradou, e mesmo assim o personagem não chega a cativar. Mais uma vez ficou superficial, um “Sutter pela metade”, reduzido um menino traumatizado pelo abandono do pai e inconsequente.

E finalmente no filme, o espectador consegue o final que tanto torce ao ler o livro: a mudança na postura de Sutter (que no filme, não é tão chocante quanto seria no livro), com ele se reaproximando da família, buscando seus objetivos de forma responsável e indo ao encontro de Aimee. O filme, diferente do livro, mostra o fechamento de seu enredo, possuindo um “fim” de fato.

Concluindo, acho que este não é apenas um daqueles casos em que “o livro é sempre melhor que o filme”. Mesmo com atores talentosos (Cassidy inclusive é representada por Brie Larson, ganhadora do Oscar de melhor atriz em 2016 e Bob Odenkirk, o maravilhoso Saul de Breakin Bad como Bob/Dan), O Maravilhoso Agora deixa a desejar em termos de adaptação, edição e direção. O resultado final, infelizmente, é um filme superficial e um pouco confuso, que acredito que não me impressionaria mesmo sem nunca ter lido o livro.

Para quem quiser conferir ele está disponível no Telecine, Now e Netflix.

 

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