Resenha: O Maravihoso Agora, Tim Tharp

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ATENÇÃO:

Esta é uma resenha crítica que contém fatos importantes da história.

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Na maioria dos livros em que uma história é contada, o autor normalmente busca criar uma empatia, alguma espécie de identificação entre o personagem principal e o leitor. Isto definitivamente não acontece em O Maravilhoso Agora, do autor Tim Tharp. A antipatia para com o personagem principal surge desde o início da leitura; ao longo do livro procura-se compreender o mesmo para, no desfecho, detestá-lo.

O protagonista da história é Sutter – 18 anos cursando seu último ano e empregado em uma loja de roupas masculinas. Já no início da narrativa, Sutter descreve as pessoas com que se relaciona de forma peculiar, enaltecendo características fúteis de cada um: a namorada é gorda, o melhor amigo baixinho e afeminado, a mãe e a irmã ambas artificiais e interesseiras, o padrasto abobado, etc. Extremamente crítico, julga-se melhor que todos à sua volta, considerando um ato de bondade permitir que as pessoas desfrutem de sua presença, algo que justifica com o lema “abraçando o diferente”. Sem dúvidas, egoísmo será uma das palavras mais lidas ao longo dessa resenha, pois praticamente define o personagem.

Mas logo as camadas e traumas mais profundos do garoto vêm à tona. Abandonado pelo pai, a quem idolatra cegamente, fica claro que sua solidão está sempre sendo mascarada pela enorme quantidade de álcool que consome, as inconsequentes noites de festa, o bom humor forçado e sem limites, além de seus relacionamentos amorosos superficiais pois não permite se envolver. Egocêntrico, finge para si mesmo que é feliz, outro de seus lemas – “viver o agora” – não permitindo que sofrimentos do passado venham à tona e nem planejando seu futuro, pois considera tudo descartável. Para que este modus operandi funcione, vive proporcionando a si próprio e aos seus amigos e namoradas “picos” de diversão regada a álcool, drogas e atitudes inconsequentes, algo que com o passar do tempo cansa os que estão à sua volta.

Tentando convencer a si próprio de que não é egoísta, sendo capaz de colocar os sentimentos alheios antes dos seus (algo que sua então ex-namorada, Cassidy, acusa ser um dos motivos para terminar a relação), o garoto interfere na vida de seus amigos e os faz de “projetos pessoais”. Mas, quando deixa de ser o centro das atenções, o resultado não o agrada – algo que podemos observar quando Sutter inicialmente ajuda Ricky apresentando-o à garota que ele julga ser apropriada, mas depois que o namoro se consolida passa a desagradá-lo. O fato de o amigo estar feliz numa relação a dois, não querendo viver da forma inconsequente com a qual estavam acostumados, torna-se incompreensível para o protagonista que, após inúmeros momentos de crise, perde o vínculo com seu melhor amigo.

É em um destes momentos de solidão que ele conhece Aimme, e a garota torna-se seu novo projeto. Quando a vida da garota, seus dramas e a forma como ela lida com eles são apresentados, a personalidade de Sutter passa a ser injustificável para o leitor. Mesmo considerando a resiliência e apatia de Aimee perante suas dificuldades, a maneira como ela constrói seu futuro positivamente enaltece ainda mais a imaturidade e o egoísmo de Sutter.

A relação entre os dois começa como amizade e acaba tornando-se um sentimento real para ambos, mesmo que Sutter tenha dificuldades em assumir isso. Muitas vezes o protagonista justifica que o envolvimento só existe para dar confiança e ajudar a menina, mas fica claro que também está se envolvendo. Aliás, este parece ser seu único sentimento nobre: o amor que sente por Aimee. Amor que não o impede de sentir-se extremamente atraído por sua ex, colocando seus desejos acima dos sentimentos de sua namorada ao flertar com Cassidy.

Ao longo da história fica nítido que o relacionamento de Sutter com Aimee, apesar de dar autoconfiança a ela, é extremamente destrutivo e tóxico para a menina. Em uma necessidade cega de agradar o namorado, a personagem passa a beber demais, sair demais mesmo precisando levantar cedo para trabalhar, vê seu rendimento escolar cair e rompe com uma de suas amigas mais próximas. Carente, Aimme sente um amor e devoção por Sutter nada saudáveis. Recusando-se a enxergar os defeitos de seu namorado, Aimee está sempre justificando os erros de Sutter, colocando a culpa nos outros e até nela mesma. A personagem irrita até que o momento em que faz o leitor sentir pena, pois parece não ter amor próprio, e muitas vezes é difícil compreender suas atitudes. Seria extremamente enriquecedor se em algum momento do livro o leitor pudesse conhecer o ponto de vista dela da história, e não apenas através dos “olhos” do narrador.

Mesmo depois de uma intervenção de seus amigos, Sutter se recusa a reconhecer o mal que faz à Aimee. Até que Aimee sofre não um, mas dois acidentes causados por erros de Sutter e mesmo assim não o culpa. A partir daí Sutter de fato compreende que não é o melhor para Aimee, tendo sua única atitude altruísta em todo o livro: incentivando-a a seguir seu caminho sozinha (mesmo amando-a).

Pode-se dizer que a origem da personalidade peculiar de Sutter vem de seu pai e o pouco que se lembra dele, algo que se evidencia no encontro dos dois. Ambos têm problemas com álcool (na memória de Sutter, o momento em que seu pai sentiu maior orgulho dele foi quando, ainda criança, ele bebeu uma grande quantidade de cerveja), comprometimento e confundem falta de senso de ridículo com popularidade e diversão. O personagem não gosta do que agora sabe sobre o pai – antes sua visão era infantil e romantizada – e consegue reconhecer nele os mesmos defeitos que possui, mas isto não basta para provocar em si uma mudança de postura.

Com relação ao final do livro, é necessário tempo para pensar, absorver e entender. E após esta reflexão entende-se que é condizente com o que foi contado, porém não deixa de ser frustrante (até agora ainda não me decidi sobre o fechamento do enredo de tão “em aberto” que termina). O romance se desenvolve, os fatos acontecem, passamos a compreender os personagens envolvidos, criamos expectativas, a mensagem é dada pelo autor, o protagonista começa a sua mudança, tem um caminho claro a seguir e… não segue! E a expectativa do leitor vai “ralo abaixo”. Concluindo, Tim Tharp construiu uma bela narrativa, com boas passagens e não deixa de transmitir sua mensagem, exaltando o egoísmo do protagonista(?) até a última linha, quando não dá ao leitor, o final tão esperado.

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