Resenha: A Rainha Vermelha, Victoria Aveyard

A-Rainha-Vermelha

“Todo mundo pode trair todo mundo.”

Em quase todas as críticas, resenhas e notas sobre o livro A Rainha Vermelha, as similaridades com obras como Jogos Vorazes, Divergente e Game of Thrones, são citadas de forma quase unânime e, nesta resenha, não haveria como ser diferente. No início do livro, o leitor é apresentado à narradora da história: a jovem de temperamento forte chamada Mare. Ela é habitante de um vilarejo pobre chamado Palaphitas, cuja população é explorada por uma classe privilegiada. Essa configuração é bem similar à de Katniss (Jogos Vorazes) e remete à realidade inicial de Tris (Divergente).

As referências não param por aí: uma sociedade distópica, revoltas populares, demonstrações opressoras de força, amor juvenil, figuras femininas fortes (ditando os rumos da história) e habilidades extraordinárias; todas estas características são encontradas nas quatro obras. Pode parecer, colocando desta maneira, que a história escrita pela americana Victoria Aveyard é “mais do mesmo”, mas está muito longe disto.

A população de Norta, em A Rainha Vermelha, é dividida de acordo com a cor de seu sangue: os de sangue vermelho são seres humanos ordinários e os de sangue prateado são portadores de habilidades especiais, tais como a capacidade de manipular elementos naturais, ler mentes e induzir pessoas. Neste desvantajoso cenário, os vermelhos são governados através de um regime monárquico, de forma opressora pelos prateados. Enquanto os habitantes de vilarejos “vermelhos” trabalham em demasia, são enviados à guerra e vivem em situações de extrema pobreza, os prateados ostentam luxo e riqueza.

As habilidades dos prateados conferem a eles controle e poder sobre os vermelhos. Os poucos que discordam da forma com a qual são explorados, ou não obedecem às leis criadas pela classe opressora, acabam severamente punidos e até mesmo, mortos. Sendo assim, existe entre os vermelhos um enorme sentimento de revolta, mas também medo, pois se consideram e são considerados inferiores perante seus poderosos governantes.

Dentro deste contexto, a trajetória de Mare é marcada pela guerra; integrante de uma família de cinco irmãos, três foram enviados para a batalha, e seu pai, retornou da mesma deficiente. Logo, a convocação de seu melhor amigo, Kilorn, leva a protagonista a tomar atitudes desesperadas.

E é neste momento que a protagonista toma conhecimento da Guarda Escarlate, organização formada por vermelhos que buscam direitos igualitários e melhores condições de vida e trabalho. Para isso, atuam de forma violenta, atacando os prateados e suas construções, pois acreditam ser a única maneira de serem reconhecidos e respeitados pela classe opressora.

Ao tentar conseguir a quantia para ingressar na Guarda e fugir do vilarejo, Mare conhece Cal, príncipe e futuro Rei de Norta. Sem saber de quem se trata, porém muito intrigada com a atenção que ele lhe dispõe, Mare o deixa a par de sua situação, confessando suas inseguranças, sentimentos e insatisfações para o prateado. Comovido e interessado, Cal solicita que a jovem seja convocada para trabalhar como criada dentro do Castelo, com o intuito de livrá-la da guerra.

Já no castelo, por acidente Mare descobre também ter poderes, algo considerado impossível para um vermelho. A personagem é, então, obrigada pelo Rei Tiberius e pela perigosa Rainha Elara a participar de uma manobra política: sua identidade é alterada, fingindo que ela é uma prateada. Além disso, Mare é nomeada noiva de Maven, irmão mais novo de Cal. Tudo para que o fato de que vermelhos também podem ser poderosos não venha à tona, desestabilizando ainda mais a ordem política que, neste ponto, esta sofrendo severas ameaças da Guarda Escarlate.

A dinâmica entre os irmãos é um dos pontos centrais que “costuram” a história. Enquanto Cal aceita seu destino e se prepara para assumir o lugar do pai, concordando com a dinâmica política estabelecida, também deseja ser um governante mais justo; já Maven, que cresce à sombra do irmão mais velho, mostra-se completamente contrário à segregação e exploração dos vermelhos. A relação dos dois com Mare irá se transformar e confundi-la diversas vezes ao longo da trama, o que irá resultar em consequências marcantes.

Diferente das outras obras literárias citadas, neste caso, o sentimento da protagonista pelos irmãos afeta, e ao mesmo tempo corresponde, aos fatos políticos que se desencadeiam no enredo. O romance é crucial, mas não desvia do foco principal da história: a disputa pelo governo de Norta. Desenvolve-se então uma complexa trama política e emocional, carregada de reviravoltas, juramentos, desconfianças e segredos.

Com a narrativa extremamente detalhada e bem construída, o leitor fica a par de todo o conturbado caminho vivido pela protagonista: a descoberta de seu poder, sua desconfiança e ódio para com os prateados, a dualidade de sentimentos por Cal e Maven, o medo de Elara, a dor da perda, a dedicação à causa, e finalmente: a compreensão do que é trair e ser traída.

Engana-se quem pensa que A Rainha Vermelha tem como objetivo contar a história de um triângulo amoroso. Com mudanças repentinas no curso da história, somadas a personagens complexos e contraditórios, trata-se de uma trama extremamente política. Aborda temas como preconceito, justiça, valores familiares, amizade, confiança, ambição, benevolência, estratégia e um toque de romance. Com um final aparentemente previsível, porém surpreendente (no maior estilo George R. R. Martin que, para quem não sabe, é uma das maiores referências da escritora), a obra é daquelas que prende o leitor, passa sua mensagem, faz refletir e deixa as lacunas certas abertas para sua continuação.

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Nota da Leitora Dinâmica (alerta Spoiler!):

Quando comecei a leitura, parecia que a semelhança com a obra de George R. R. Martin se resumia apenas aos nomes, cores de Casas e um trono desejado. Porém, ao chegar o fim da história, fica impossível não traçar um paralelo da relação entre Elara e Maven com a de Cersei e Jeoffrey em Game of Thrones. Aliás, pode-se dizer que Elara é uma temida espécie de “Cersei com poderes sobrenaturais”, o que deixou a dinâmica final da história, excepcional.

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2 pensamentos sobre “Resenha: A Rainha Vermelha, Victoria Aveyard

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