Resenha: Proibido, Tabitha Suzuma

proibido

RESENHA CRÍTICA – CONTÉM FATOS IMPORTANTES DA HISTÓRIA:

“Na nossa sociedade progressiva e permissiva, todos esses tipos de “amor” daninhos e doentios são permitidos – mas não o nosso”.

O romance Proibido, escrito pela inglesa Tabitha Suzuma, está naquela categoria de livros que te faz repensar seus valores e julgamentos, ao mostrar temas complexos por ângulos diferentes do que estamos acostumados. A história é contada através da alternância das narrativas dos irmãos Lochan e Maya; ambos pertencem a uma complicada família composta por cinco irmãos, mãe irresponsável e pai ausente. E é neste contexto que o sentimento entre eles aflora e desenvolve.

Após o abandono do marido, a mãe mergulha em seus problemas com o álcool e passa a agir de maneira irresponsável, comportando-se como uma adolescente, ficando dias fora de casa e negligenciando os filhos. Diante da ausência de figuras de autoridade paterna e materna, os filhos mais velhos – Lochan e Maya – assumem a responsabilidade de cuidar da casa e dos irmãos caçulas, com o objetivo de evitar que a assistência social retire suas guardas da mãe e os separe. Lochan trabalha arduamente para manter os irmãos unidos, acobertando as falhas e bebedeiras da mãe diversas vezes, e este desejo será crucial para o desfecho do livro.

Apesar do excelente desempenho escolar, Lochan não consegue interagir socialmente com nenhum outro jovem, e com os adultos, somente quando é estritamente necessário. Quando é forçado pelos professores, acaba sofrendo agudas crises de pânico em público, o que dificulta ainda mais seu convívio com outros alunos. Consequentemente, é um jovem extremamente solitário, cuja interação social é feita unicamente com seus familiares.

Ante a dura e instável realidade em que vivem, Lochan e Maya estabelecem um forte vínculo de confiança mútua. Acentuada pela ausência de figuras paternas, a interação entre os dois deixa de ser apenas fraternal, pois não desempenham papéis de filhos/irmãos, e sim de pais. Logo, a relação transforma-se em uma íntima amizade e parceria, que agravada pela dificuldade de convivência em um ambiente externo ao familiar, faz com um torne-se “tudo” para o outro: o amigo, parceiro, protetor, companheiro e até mesmo um alento à solidão que sentem. Esta configuração, acaba sendo propícia para o nascimento de um sentimento diferente entre os dois irmãos.

Diante da consciência do que estão sentindo um pelo outro, ambos ficam visivelmente perturbados e se afastam. Maya numa tentativa de negar o que está acontecendo, tenta se envolver com um colega que não lhe atrai; Lochan responde de maneira ciumenta e controladora ao fato, resultando na primeira e dura discussão entre os dois. Ao perderem a razão, deixam-se levar pelo momento e assumem o que sentem, cruzando uma tênue linha e interagindo como homem e mulher pela primeira vez.

“O dia em que finalmente parei de mentir para mim mesma, parei de fingir que era apenas um tipo de amor que sentia por ele, quando na realidade eram todos possíveis e imagináveis de amor.” – Maya

Mesmo com inúmeras tentativas de lutar contra o que sentem, os irmãos sucumbem à paixão e passam a namorar escondido. O relacionamento inicialmente traz benefícios para ambos – como a melhora da fobia de Lochan – e também para toda a família, que passa a ter a rotina cada vez mais estruturada. Porém, com pouco tempo a sós e cada vez mais envolvidos, os irmãos passam a ficar displicentes em esconder o relacionamento dentro de casa.

Previsivelmente, a relação é descoberta pela mãe, após ser delatada pelo problemático irmão do meio, Kit. É importante frisar que a delação acontece por um motivo fútil, para atingir negativamente Lochan, e não porque o Kit estivesse de fato incomodado com o relacionamento entre os dois irmãos (o que demonstra a confusão dos papéis desempenhados pelos diferentes membros da família). Perante as consequências de seu ato impensado, Kit desespera-se, tentando minimizar os danos da situação, já sem controle.  Acaba pedindo perdão para o irmão, que o concede.

O desfecho do caos que foi instalado, após o relacionamento vir à tona, foi o mais condizente diante da personalidade de Lochan. Ao longo do livro, diversas vezes o personagem pontua que daria a vida pelos irmãos, e exalta o amor quase paterno que sente por eles. Ao se suicidar, ele não somente salva Maya da cadeia, mas permite que os irmãos permaneçam juntos. Lochan dedicou sua vida aos irmãos e desiste dela por eles, pagando o preço de erros não somente dele: o amor de Maya, a negligencia da mãe, a ausência do pai e a inconsequência de Kit.

Inicialmente, depois da morte do irmão e amante, Maya também planeja acabar com a própria vida. Porém após um momento de reflexão, a menina percebe que caso vá adiante, o sacrifício de Lochan terá sido em vão; sem ela os irmãos serão separados, que é tudo que o garoto sempre tentou evitar. Maya então decide seguir em frente e manter a família unida, apesar de sua tristeza.

Concluindo, Proibido é daquelas obras, que nos causam sentimentos dúbios, e fazem refletir. Apesar do leitor ser apresentado apenas ponto de vista romântico do fato (já que a história é narrada pelos personagens emocionalmente envolvidos), a escritora mostra de forma sutil e inteligente que nada é tão “preto no branco” quanto parece, o que torna muitos julgamentos difíceis, dispensáveis e injustos.

—————————————————————————————————————————————

Nota da Leitora Dinâmica:

Proibido é um dos romances mais complexos que li em muito tempo, me fazendo refletir de tal forma, que dificultou até a elaboração desta resenha. Ao pesquisar sobre obra e autora, li em uma entrevista para a Folha de São Paulo, que Tabitha Suzuma fala que nunca foi sua intenção julgar a legalidade do incesto: “Queria apenas escrever sobre uma história de amor definitivamente proibida… Queria escrever sobre um amor condenável universalmente” – citando a própria. Mas, como leitora, tive outra percepção ao ler o livro: no exato seguinte momento em que Lochan e Maya consumam sexualmente sua relação (algo muito discutido no enredo), ela é descoberta e o garoto condenado. É como se o “destino”, que neste caso é a escritora, os punisse pelo que haviam acabado de fazer. Ainda refletindo, concluo que se o objetivo da autora era uma reflexão sobre tabus, ela o alcançou com bastante êxito.

13277947_1138224019577971_16695235_n

 

Um pensamento sobre “Resenha: Proibido, Tabitha Suzuma

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *