Resenha: Nada, Janne Teller

Livro-Nada-–-Janne-Teller-PDF-MOBI-LER-ONLINE

Agoniante, perturbador e …maravilhoso. Nada, escrito pela dinamarquesa Janne Teller levanta uma série de questionamentos pessoais, sociais e expõe a essência do ser humano em sua pior forma. É um daqueles casos em que a sinopse não faz jus à história do livro que descreve – o que acredito ser proposital.

Aparentemente “leve”, o romance – que se passa em uma cidade do interior da Dinamarca – inicia-se com um acontecimento peculiar no primeiro dia de aula da classe do sétimo ano. Um aluno chamado Pierre Anthon, sai de sala alegando que “nada importa logo não vale a pena fazer nada”; diante desta afirmação, passa a habitar a árvore em frente sua casa, questionando e provocando seus colegas quando os mesmos passam por ali.

A atitude de Pierre Anthon desperta uma série de dúvidas nos demais alunos, levando-os a questionar o real significado de tudo. Uma espécie de incômodo toma conta de toda a classe, e a solução encontrada por eles para resolver o “problema” é tirar Pierre Anthon de sua árvore. Para isso, eles decidem atirar pedras no colega, utilizando-se de violência para fazê-lo sair do local. Neste momento da história, a escritora expõe a maneira que o “diferente” é capaz de incomodar um grupo, que mesmo sendo de alunos de 13/14 anos, sente a necessidade de extingui-lo para retomar a sua ordem.

Com o fracasso da tentativa de “jogar pedras” e a permanência de Pierre Anthon na árvore, as crianças decidem seguir outro caminho: provar que os questionamentos expostos pelo colega estão errados.  A nova estratégia deles consiste em montar uma pilha com itens que contenham significado, algo que não possa ser contestado por Pierre Anthon, e convença o mesmo de que ele está enganado. Existe a necessidade de tornar o “significado” algo palpável, tanto para o colega questionador, quanto para os próprios alunos que desejam provar que ele está errado.

À medida que a pilha de significados começa a se formar, ceder os objetos passa a ser cada vez mais doloroso para os alunos. Movida por este sentimento, Agnes (narradora da história, canal por onde o leitor conhece a percepção das crianças diante dos acontecimentos), decide “vingar-se” de outra aluna, solicitando seu animal de estimação para a pilha. Este é o ponto inicial em que o limite do aceitável (ou até mesmo do ético) é ultrapassado entre os envolvidos, que ficam ludibriados com o ser-vivo e a representação da vida na pilha, e o significado que isto acrescentou a ela.

A partir deste momento os “significados” solicitados são cada vez mais pesarosos e cruéis, já que os solicitantes passam a agir influenciados pela raiva do que abriram mão. A noção de certo e errado é completamente perdida por eles, que “justificam” seus erros como pertinentes à construção da pilha – algo muito próximo de “os fins justificam os meios”. E é aí que a história torna-se assustadora.

Se antes o livro parecia um romance infanto-juvenil bem elaborado, protagonizado por crianças, agora passa a ser um enredo de horror. Com passagens revoltantes envolvendo um estupro “consentido” pela vítima e pelas demais meninas da classe, o assassinato de um animal inocente, amputações e a banalização de objetos religiosos, o leitor por diversas vezes duvida que esteja lendo um romance protagonizado por crianças – tamanha a crueldade de seus atos.

A elaboração da pilha causa danos em todos, e traz à tona o pior de cada um. Quando sua existência vem a conhecimento da comunidade, as opiniões a respeito do que a mesma representa são as mais contraditórias: uns amam, outros condenam. Porém, a pessoa chave que deu início ao processo, Pierre Anthon, não se comove com o feito e mantém suas verdades imutáveis. Não satisfeito, questiona os colegas novamente, sobre sua postura o perante o sucesso que a obra os trouxe, deixando a maioria novamente em dúvida sobre a existência de um “significado”.

Em um final terrível, provável, e mesmo assim inesperado, o leitor acompanha a crise de consciência que se inicia entre as crianças; mesmo reconhecendo os terríveis atos que cometeram, não são capazes de assumir a culpa pelos mesmos, direcionando-a ao questionamento levantado por Pierre Anthon e a ele próprio.

Concluindo, Nada expõe o lado mais animalesco e cruel do ser humano, algo intrínseco na essência de cada um, já que a maioria das ações cometidas pelos personagens partiu de cada um, não foi “ensinada” por ninguém. Na última fala de sua narradora, o livro entrega sua conclusão de uma forma muito sutil: não são objetos que possuem significado e sim o que eles representam e/ou os atos que rememoram. Compreende-se que o “significado” tão buscado ao longo da história, é na verdade a representatividade de tudo: de atos, sentimentos e escolhas – positivas ou não.

—————————————————————————————————————————————

Nota da LD: Eu diria que é uma heresia sem fim categorizar Nada como leitura Young Adult; este livro é capaz chocar o mais experiente dos leitores. Passei dias pensando em como redigir esta resenha, e cheguei à conclusão que nada que eu escrevesse seria completo, e estaria à altura da infinidade de temas e questões abordadas por Janne Teller. Este é o tipo de livro que deve ser discutido à exaustão, destrinchado e questionado – e mais importante ainda: lido. Particularmente, histórias envolvendo crianças e crueldades me chocam (por exemplo, de A menina que não sabia ler), mas neste caso a história conseguiu conter tudo que há de pior e mais revoltante no ser humano, na minha humilde opinião. Somos capazes de acompanhar atos movidos por inveja, cobiça, vingança, luxúria, abuso de poder, preconceito, avareza – todos cometidos por crianças de 13/14 anos! Para mim foi uma leitura excelente (a qualidade da escrita e a inteligência da escritora são inegáveis), porém chocante, o que torna compreensível a polêmica em torno da obra, chegando a ser proibida. Recomendo sim o livro, mas com todas as advertências possíveis para quem se aventurar, pois é um romance de “dar nó” na cabeça de muita gente – e uma vez lido, impossível de esquecer.

13275784_1138224046244635_1301740189_n

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *